quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Nascimento do simbólico

Símbolos são aqueles capazes de preencher todas as necessidades humanas com espíritos, almas e deuses. Substituindo desde os passados mais remotos com figuras, imagens e pinturas, tudo aquilo que povoa o cotidiano da sociedade. É o que impulsiona o ser humano, para frente se for positivo criando expectativas de vida espiritual.
Os símbolos para Campbell (2004, p. 24), quando discute Jung, faz uma distinção entre símbolo e sinal, um sinal é uma referência a algo que é conhecido ou possível de ser conhecido de uma maneira perfeitamente racional (...). O sinal “indica” um local cognoscível, físico. Mas um símbolo – um símbolo mítico – não se refere a algo conhecido ou possível de ser conhecido de maneira racional.
Podem ser aqueles que se destacavam por algum motivo.
De acordo com o Livro do Êxodo, Moisés teria recebido os Dez Mandamentos. E entre os mandamentos há o que se refere à manutenção do monoteísmo, ponto de honra para os hebreus, não para os cristãos e outras religiões que utilizam substituto para Ele. Mas os homens se mantiveram e se mantêm em total ausência deste unitarismo e com a mesma condição de sua natureza, acreditam em várias forças, como nossos antepassados que colocavam em todas as forças naturais, a figura de deuses.
Exemplos: no trovão, nas matas, nas cachoeiras, nos rios, nos mares, nos astros, aonde se quer colocar a presença de Deus ou de deuses. Não bastou para as religiões o poder de Deus criar o Mundo, mas também de endeusar tudo aquilo criado por Ele, inclusive o homem. Homem, com capacidade de também se tornar deus, como os patriarcas, Moisés, Zaratustra, Buda, Jesus, os Papas, Maomé, Aitolás e depois destes, as instituições se fixaram em cima de suas soberanias, não permitindo o nascimento de nenhum outro homem capaz de falar com Deus.
Se acontecer isto com outro homem, este será considerado louco.
As próprias escrituras não aceitam céticos em seus escritos, já que estes pensam e podem manifestar pensamentos divergentes daquilo que eles entendem como possibilidades do nascimento de críticas. Homens que pensam, não servem para se adaptar aos poderes já existentes. A não ser aqueles que pensam como eles pensam.
O homem vive a esperar a volta de Buda que criou como alternativas, a reencarnação. A esperar a volta de Cristo, com a Igreja Católica criando a ressurreição, a vinda do Messias, à vinda do Salvador, a vinda daquele que colocará a paz sobre o mundo, as vindas de tantas outras alternativas que sabem não acontecerá. Colocou o homem em eterna espera, em paralisação e desproveu alguns de suas próprias inteligências, ficando estes em eterna suspensão, deixando de viver e aproveitar a vida da forma que foram concebidos, como simplesmente cargas genéticas, capazes de propiciarem a continuação de suas espécies.
O homem que conseguiu se enquadrar como animal, mas não teve a capacidade racional ainda de pensar com a lógica, de um mundo que tem fim, de uma vida que termina no momento em que morre. Ele está aqui neste momento cumprindo simplesmente o seu papel genético, e que por mais alternativas que crie para se tornar eterno, é e será sempre em vão. A eternidade se consegue através de suas heranças históricas e genéticas. Aqueles que por bem ou por mal, dentro do que seria bom ou mal, deixaram suas marcas e se eternizaram.
Jesus, quando promoveu os movimentos contra os opressores, Buda percebeu as desigualdades, Moisés criou leis, Maomé se interessou pelas riquezas e criação de leis que possibilitariam a discussão do estabelecido, Hitler quando tentou dominar o mundo. Georges pai e filho, quando dominaram e expandiram o Império norte-americano e outros, são figuras, nada mais que figuras que conseguiram ficar registrados entre as histórias dos homens e nada mais do que isto.
Daí, a colocá-los como deuses, representantes de Deus ou endeusá-los a ponto de fazerem-se referências divinas, preces em seus nomes, orações, pregações, criações de templos, igrejas, mesquitas, sinagogas e tantas outras formas de devoção, podemos considerar que os males dos homens estão dentro de suas cabeças e não na vontade de Deus.
Pela sua natureza, o homem criou todas as alternativas quanto possíveis. Os patuás, sereias, cavaleiros contra serpentes, milagres dos mais diversos, sempre em nome de alguém, de santos e santas, e das mais diversas crenças.
Vejamos a quantidade de alternativas que são criadas, exemplos disto: meias luas, sóis, estrelas, cruzes, velas, imagens que possuem fisionomias de homens e mulheres, de animais, de demônios, de santos e santas, santíssima trindade, imaculadas, virgens, aqueles que abriram mãos de suas riquezas, templos, igrejas, que combinam com a riqueza, de onde se entende que Deus estaria ali.
Santos e Santas que se criaram das diversas necessidades humanas, dos seus egoísmos, de santos com nomes ou sem nomes, bastando para isto o momento em que se encontravam aqueles que o batizavam de acordo com as vontades, daqueles que dominavam determinados períodos da história. Exemplos: Nossa Senhora Aparecida, porque apareceu? Nossa Senhora da Glória, porque glorificou? O que? Dos Navegantes, por que navegava? Das Graças, por que concebia graças? Dos Perdidos, por que ajudava que se encontrava nestas condições? Dos prazeres, dos desterrados, dos mares, da vitória, da guerra, do trovão, das tempestades, dos raios. Senhor do Bom Fim, Senhor Morto, Senhor todo poderoso, glória a ti senhor do dinheiro, dos pobres, dos desvalidos, dos miseráveis, dos sem fé, daqueles que acreditam em sua volta, das dores, do sofrimento, dos achados, dos perdidos, das virgens, dos Rocios, das Fátimas e outros tantos.
Para Erasmo de Rotterdam (2001, p. 56),

é preciso, sim, é preciso ter nascido sob um particular auspício dos deuses para saborear tão doces quimeras. E o melhor é que nunca se fartam de ouvir semelhantes patranhas. Os milagres, os espectros, os duendes, os fantasmas, o inferno, e mil outras visões dessa natureza, são assunto mais comum das conversas do vulgo ignorante, sendo que, quanto mais extraordinárias são essas coisas, com tanto maior prazer são elas ouvidas e facilmente acreditadas. E não penseis que tais histórias se contem apenas para iludir as horas de aborrecimento: tornam-se, na boca dos monarcas e dos pregadores, um meio de tirar proveito da crendice popular.

É possível vendo-se com uma visão mais crítica, que todas as alternativas se fizerem necessárias para se livrar os sofrimentos da carne. Estas são construídas, em qualquer momento por aquele que enfrenta determinadas situações e a partir daí outros passam a segui-las até o momento em que surgem as construções e beatificações de tais atos.
Ainda para Erasmo de Rotterdam, (2001, p. 57);

A essa espécie podem agregar-se, a justo título, os ridículos e originais supersticiosos, os quais, toda vez que têm a sorte de ver alguma estátua de madeira ou alguma imagem do seu polifêmico São Cristóvão, ficam convencidos de que nesse dia não poderão morrer. Soldados há que, depois de uma pequena prece diante da imagem de Santa Bárbara, ficam certos de que sairão ilesos da batalha. Alguns acreditam que invocando Santo Erasmo em certos dias, com certas orações e à luz de certas lamparinas, seja possível fazer grande fortuna em pouco tempo. E que direi do hercúleo São Jorge, que para esses supersticiosos faz as vezes de um novo Hipólito? Na verdade, não se pode deixar de rir diante de sua devoção, que consiste em ornar pomposamente o cavalo do santo e quase em prostrar-se diante do animal assim enfeitado, para o adorá-lo. Fazem questão absoluta de conservar o favor e a proteção do cavaleiro por meio de uma oferta, sendo inviolável para eles o juramento que fazem pelo seu penacho.

Como é fácil substituir-se Deus. Basta para isto, construir-se qualquer condição paliativa e os homens passam a adotá-las imediatamente, fazendo suas oferendas e se entregando rapidamente a qualquer coisa, menos a sua inteligência, a sua lógica e a sua razão.
Racionais, aqueles que pensam. Difícil é avaliar as diferenças entre animais irracionais e aqueles que pensam, se aqueles que pensam e acham que pensam se dedicam a todo o momento a acreditar em coisas sobrenaturais, não humanas, abstratas e sem nenhuma razão.
Para materialização dos mitos conforme Morris (2004, p. 191) a religião conduziu a diversos subprodutos bizarros, tal como a crença numa “outra vida”, em que encontraríamos, finalmente, as figuras-deuses. Os deuses eram inevitavelmente impedidos de nos aparecerem na vida atual, mas essa falta podia ser corrigida depois da vida.

Para facilitar as coisas, desenvolveram-se as práticas mais estranhas em relação ao destino dos nossos corpos quando morremos. Se vamos finalmente encontrar os nossos senhores dominantes e todo-poderosos, devemos ir bem preparados para o acontecimento, o que justifica todos os requintes das cerimônias fúnebres. A religião também originou muito sofrimento e miséria desnecessária, sempre que se formalizou exagerada neste a sua aplicação e sempre que os “assistentes” profissionais das figuras-deuses não resistiram à tentação de lhes pedir emprestado um bocadinho do poder divino, para usar em proveito próprio (Morris, 2004, p.191).

Contudo, apesar da história da religião ser muito confusa, trata-se de um aspecto da nossa vida social sem o qual não podemos passar. Para Morris (2004, p. 192) a nossa natureza comum exige a execução e a participação em requintados rituais de grupo. Eliminam-se a “pompa e a circunstância”, deixa-se uma terrível lacuna cultural e a doutrinação não atingirá o profundo nível emocional que lhe é indispensável. Acontece ainda que certos tipos de crença sejam mais prejudiciais e estupidificantes do que outros, podendo mesmo desviar uma comunidade para tipos de comportamento rígidos que impeçam o respectivo desenvolvimento qualitativo.

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