sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Formação cultural

Na sociedade em que estamos inseridos adquirimos as experiências e conceitos com facilidade e com dificuldades, mas principalmente nas informações dadas pelos que estão mais próximos a nós. A aprendizagem é feita por transferências de informação e imitação. Temos nossas relações instintivas, mas não nos limitamos somente a isto, mas também na observação. Muitas informações são incorporadas durante a nossa vida, sendo a sua maioria durante as idades iniciais.
As informações são coletadas e transformadas em símbolos, que se intensificam e se tornam absolutamente reais, situações abstratas confirmam-se diante de dúvidas trazendo respostas e significados. Para Morris (2004, p. 133),

é essa imutável obediência a tais impressões (a par dos nossos instintos cuidadosamente dissimulados) que torna tão difícil que as sociedades mudem os respectivos costumes e ”crenças“. Mesmo perante novas idéias, excitantes e brilhantemente racionais, baseadas na pura aplicação objetiva da inteligência, a comunidade ainda se manterá agarrada a antigos hábitos e preconceitos caseiros.

Na formação cultural, os mitos são de exclusividades locais. São construções das necessidades de um determinado momento e de uma determinada história. Podemos citar como um dos modelos, a civilização da Antiga Grécia aonde conforme Pouzadoux (2001, p. 4, caderno de informações) o mito se transforma em realidade, porque
a natureza inteira, entre os gregos antigos, estava relacionada com as potências divinas. Os rios e florestas eram habitados por ninfas, que os homens respeitavam tanto quanto respeitavam os deuses. As tempestades, os raios e o trovão eram interpretados como sinais da cólera de Zeus. Cada divindade tinha seus atributos e suas funções. Todas as atividades humanas eram representadas por um deus ou uma deusa.

Eis como se apresentava essa sociedade divina, também chamada Panteão . Suas criações faladas ou escritas se vinculavam às suas realidades. Não servem para outras sociedades, mas no processo de expansão intelectual ou comercial invadem outras sociedades e tentam se impor. Trazendo manifestações condições divergentes que irão se impor de qualquer forma.
A conformidade com a construção ideológica faz com que a sociedade não reflita sobre as formas de dominação existentes, a política e a religiosidade se manifestam de acordo com os jogos de interesse. Sendo mais fácil se alienar ao sistema, porque a formação de resistências pode trazer conseqüências e perseguições àqueles que tentam formar novas ordens de pensar, ou melhor, reordenar o pensamento criando ou gerando expectativas. Conforme Durkhein (1917), primeiro se assimila e depois se acomoda. A diversidade constrange, e é preciso o amparo de instituições democráticas que viabilizem o desenvolvimento intelectual do homem.
A contradição é um dos fatores que faz com que a sociedade atinja níveis de transformações sociais. Dela se alteram conceitos e regras. A importância deve-se ao fato de se desatrelar de conceitos existentes.
Não podemos exercer julgamentos sobre culturas, já que as sociedades diferem culturalmente uma das outras.
Mas sabemos que determinadas culturas extremamente rígidas resultados de escravidão, e processos de alienação de grande duração, levam à repetição imitativa, conforme Morris ‘Nos nossos dias existem numerosos exemplos de culturas exageradamente rígidas ou exageradamente insensatas. As pequenas sociedades atrasadas, completamente dominadas por pesadíssimos tabus e costumes antigos, são exemplos das primeiras’.

Essas mesmas sociedades tomam-se rapidamente exemplos do segundo tipo, quando são convertidas e “ajudadas” pelas civilizações avançadas. O impacto súbito de novidade social e de excitação exploratória submerge as forças estabilizadoras da imitação ancestral e desequilibra a balança para o lado oposto. Daí resulta confusão e desintegração cultural. Feliz seria a sociedade que adquirisse gradativamente um equilíbrio perfeito entre a imitação e a curiosidade, entre a escravatura da aceitação cega da imitação e a experimentação progressiva e racional (Morris, 2004, p. 134).

Não há comparações tecnológicas, mas somente desenvolvimentos alterados por relações, sejam elas de ordem capital, de exploração, ou superioridades bélicas. Estes desníveis de estágios se engrenam de tal forma que a dominação é exercida no inconsciente dos dominados, sofrendo penalidades aqueles que discordarem de tais processos. As dominações são exercidas das mais diversas formas, alterando ou mantendo as culturas de acordo com a vontade de seus exploradores. Em uma relação de poderes tecnológicos, desenvolvidos e subdesenvolvidos se complementam e sofrem influências de quem os governa ou de quem os governou. Suas realidades são de acordo com os seus desenvolvimentos. Opressões também são exercidas sem necessariamente haver percepções sobre o que ocorre pelos envolvidos. Exemplo, o escravo não percebe que é escravo, a não ser que compreenda o que é ser livre. Sendo escravo são criadas formas culturais, provando que ele é escravo por merecimento, por não ter certas condições que a liberdade para ele seria completamente desmotivadora de suas expiações. E sem estas condições não poderia alcançar os propósitos que lhe foram impostas como a libertação de sua alma, muito mais importante do que sua vida.
As religiões são formas culturais do impedimento emancipatório das civilizações. Entre elas o cristianismo no seu início era formado por críticas a uma sociedade escravocrata e imperialista, como a romana. A união dos escravos e dos despossuídos, formaram grupos de descontentes que passaram a ser chamados de cristãos e o estado romano percebendo a sua fragilidade, passou a adotar, a partir do século IV, idéias que relacionavam este passado de lutas com a religião.
O catolicismo, criado com fins de apaziguar estas situações, desde o final do século IV, pondo fim às lutas idealizadas pelos desiguais, está aí, colocando suas ideologias em prática, fascinando, criando ilusões, destruindo a razão, a lógica, mantendo as tradições, os mitos e culturas ultrapassadas. Com isto todas aquelas igrejas cristãs que foram formadas a partir dela, também acabam por não se distanciarem da sua raiz geradora, mesmo aqueles que protestaram contra ela. Transformaram-se os pagãos em algo importante para a manutenção da paz e da ordem do império.
Conforme Cambi (2004, p. 129) na Idade Média,

(...) caracterizados por uma profunda regressão da civilização e pelo retorno a condições de vida de tipo arcaico: uma economia de subsistência, uma sociedade regulada pela dependência e pela fidelidade de formas de quase escravidão, uma técnica bloqueada, uma elaboração cultural repetitiva e reduzida, um tipo de relações internacionais rarefeitas e inseguras, porém marcadas também por migrações de povos, por conflitos de etnias, por explosões de pauperismo.
Na Idade Média fortaleceram-se os monastérios, que influenciaram os modelos das escolas atuais, se dedicavam a transferir educação teológica e filosofias que alimentavam e mantinham pensamentos fundamentados nas construções bíblicas.
Sobre Idade Média e Moderna, Durant (1942, p. 123), “A proporção que o saber aumentava, o medo diminuía; os homens já penavam menos em adorar o desconhecido e mais em triunfar sobre ele. Todas as energias vitais se reanimavam numa confiança nova; derribavam-se barreiras; não havia agora limites para os cometimentos humanos.
Para Cambi (2004, p. 130), “A nova estrutura educativa elaborada pelo cristianismo, aquela que, talvez, mais profundamente – e historicamente – deixou uma marca fundamental no Ocidente foi o mosteiro”.

Essa instituição veio se fixando como um lugar de formação, constuído segundo um modelo que orientava a vida espiritual no sentido religioso e que submetia o processo formativo ao princípio da ascese (da renúncia e da mortificação), necessário para purgar e disciplinar a vida interior das tormentas das paixões e submetê-la ao guia da razão e da fé (Cambi, 2004, p. 130).

Da cultura se estabeleceram os primeiros passos da construção de uma educação tendo como modelos o passado, com suas diversas influências.

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