Fácil criarmos as dependências, difícil pensarmos para mudarmos a realidade humana. “O mito só é tardio enquanto fórmula; mas o seu conteúdo é arcaico e refere-se a sacramentos, isto é, a atos que pressupõem uma realidade absoluta, extra-humana (Eliade, 2000)”.
O homem tem a necessidade de se agarrar a determinados conceitos, que fazem partes de suas tribos, das suas relações sociais. Esta dependência vem a se fixar a partir de seu nascimento. Naquela faixa etária que compreende até a adolescência, o deixando estritamente vinculado a maternidade. Estes períodos de fragilidade e na busca de amparos de sustentação vão fazer com que dependendo de suas ansiedades, tenha na sua vida como determinante a crença nos mitos. E sempre que houver medos por qualquer coisa, ele ficará obrigado a recorrer a alternativas abstratas.
Para Morris (2004, p. 190). Como nenhum desses deuses existe numa forma corpórea, é caso para se perguntar por que foram inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de termos nos tornados caçadores cooperantes, devemos ter vivi¬do em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se vêem em outras espécies de macacos e símios.
Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso, e cada membro do grupo tem de o apaziguar ou de sofrer as conseqüências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante toda a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. E seu papel de detentor de poder absoluto dá-lhe uma posição semelhante à de um deus. Virando-nos agora para os nossos ante¬passados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça de grupo, a aplicação da autoridade do individuo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a temê-lo. Para isso o chefe tinha de ser cada vez mais como “um dos outros”. O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante (Morris (2004, p. 190).
Na busca por respostas, o homem sempre necessitou da presença abstrata de valores. Valores que preenchessem suas necessidades mais urgentes ou até garantias espirituais, egoístas, odiosas, amorosas, banais, capitais, de ser eterno. A eternização passou a fazer parte de seus cultos diários, não a eternização da espécie, mas sim aquela que lhe colocasse junto a Deus.
A metáfora passou a fazer parte do cotidiano humano, para Campbell (2004, p. 22), para unir as pessoas, para fixar a mente em alguma coisa, você precisa de uma metáfora que aponte para além dela mesma.
Mas que são figuras fechadas nela mesmas, só faz sentido para quem acredita, e estas manifestações se vinculam as formas simbólicas e entre elas Deus.
Tentamos entender por que o homem pensa que pode estar junto a Deus.
Avaliamos o que seria preciso para que isto acontecesse?
O quanto puro deveria ser este homem? Dentro dos conceitos religiosos. Vemos que nos aspectos imaculados, homens com a total ausência de pecados, isto seria possível?
Mas o que são pecados? Pecados são erros humanos cometidos por homens, que fugiram da imposição de regras. Erros e acertos que de acordo com as éticas e preceitos foram construídas e modeladas por aqueles que possuíam o poder. Poder capaz de definir o que seria certo ou errado com ou sem a presença de Deus, já que este não teria criado nenhuma regra ou ordem moral, capaz de organizar a sociedade.
Homens, portanto, se colocaram em seu lugar e criaram regras da forma que no entendimento deles seriam corretas, de acordo com a fase de evolução em que a aquela sociedade estava passando. Com isto, podemos dizer que se homens ficarem seguindo regras de sociedades antigas, o mundo ficará alienado a um processo já ocorrido e que moldou sociedades naqueles momentos de suas histórias, das suas tradições.
A bíblia ou qualquer livro que discutem história, contos, lendas de determinados períodos históricos, devem ser encarados como tais, porque a sociedade tende a ficar imobilizada e exposta por influências culturais de outros povos, que muitas vezes impedem o desenvolvimento natural, a criação de novas alternativas tecnológicas do homem.
Segundo Campbell (2004, p. 22), há apenas dois modos de interpretar erroneamente um mito, e a nossa civilização usou os dois. Um desses modos é pensar que o mito se refere a um fato geográfico ou histórico (...) o outro modo é achar que o mito se refere a um fato sobrenatural, ou a um evento real que vai acontecer no futuro – a ressurreição de Jesus, ou a segunda vinda.
Toda a tradição cristã se baseia nesses dois equívocos. O primeiro é a interpretação do mito como uma referência a fatos históricos; o segundo é a compreensão do mito como referência a fatos espirituais que existem num lugar invisível ou que deverão acontecer em algum momento futuro. È uma terrível tragédia. Esses equívocos de nosso mito nos fizeram perder o vocabulário do espírito (Campbell, 2004 p. 22).
O crente não se preocupa em identificar o local desta ressurreição ou renascimento. Um fato vinculado a uma alternativa de renascimento realizada e construído no oriente médio passa a ser uma realidade de povos que não cultuavam e nem estavam sobre os domínios das grandes navegações. E que só foram afetadas por elas após o século XV. Para eles não há a necessidade de justificativas sobre este renascimento e nem se pode se identificar quando isto acontecer.
As criações humanas que se volta a acreditar no sobrenatural são maiores nas áreas afetadas por cataclismos, principalmente naquelas que ficam envoltas com os processos naturais da modificação geológica do planeta. Sendo seus deuses mais terríveis na medida em que julgam os problemas humanos. Comum observar que as placas tectônicas que cruzam várias partes do planeta e se identificam com áreas como Mar Vermelho, Jerusalém, Tibet, México, Cordilheira dos Andes, Índia, etc., criaram deuses com maior facilidade motivada pelas necessidades de estarem sob a proteção destes. Enquanto que em lugares não tão envolvidos com problemas de modificação estrutural da terra, criaram deuses mais ligados à natureza, ou ligados ao sol e a lua, portanto mais maleáveis.
Nos governos de Constantino, se possibilitaram a inclusão da fé cristã (considerados pagãos) ao sistema doutrinário da Igreja, pela necessidade de atrelar-se ao Estado aqueles que o combatiam, e uma das formas foi a construção de uma religião que viesse de encontro aos anseios da manutenção da soberania romana. Chauí (2002. p. 29-30), relata que a filosofia patristica (do século I ao século VII), Inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina no século VIII, quando teve início a filosofia medieval.
A inclusão de idéias que seriam para a convergência da manutenção dos pensamentos mágicos, às necessidades de um governo que teria o papel de administrador da religião que ora nascia, a obrigação da introdução de idéias de acordo com os mitos necessários. Chauí, diz que foram incluídas as criações do mundo, do pecado originais, de Deus como trindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, já que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a idéia de “homem interior”, isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pela existência do mal no mundo.
A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo e João) e pelos primeiros padres da Igreja para conciliar a nova religião — o cristianismo com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conciliação seria possível convencer os pagãos da nova verdade e converte-los a ela. A filosofia patrística liga-se, portanto, à tarefa religiosa da evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. Divide-se em patristica grega (ligada à Igreja de Bizâncio) e patrística latina (ligada à Igreja de Roma) e seus nomes mais importantes foram: Justino, Tertuliano, Atenágoras, Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gre¬gório Nazianzo, São João Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho. Beda e Boécio (Chauí , 2002. pp. 29-30)
Todos aqueles que não são pertencentes à cultura romana, não defendem os interesses do grande ex-império, são considerados bárbaros, ou simplesmente pagãos. E continua Chaui;
para impor as idéias cristãs, os pares da igreja as transformaram em verdades reveladas por Deus (através da Bíblia e dos santos), que por serem decretos divinos, seriam dogmas, isto é, irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, surge uma distinção, desconhecida pelos antigos, entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou humanas, isto é, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema de toda a filosofia patrística é o da possibilidade ou impossibilidade de conciliar razão e fé, e, a esse respeito, havia três posições principais: 1. Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles: “Creio porque absurdo.”). 2. Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam eles: “Creio para compreender:”). 3. Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem misturar-se (a razão se refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere a salvação da alma e à vida eterna futura) (Chauí , 2002, pp. 29 e 30).
Na educação não se defende simplesmente a fé, mas sim, as relações científicas proporcionadas pelo conhecimento humano.
Para William Sargant, a longa história da conversão religiosa oferece inúmeros exemplos de pessoas que apanham a Bíblia e de repente, encontram novos significados, brilhando em velhos e conhecidos textos e estando altamente influenciados por relações pessoais que julgam estar de acordo com suas necessidades.
Como que os homens pode chamar de Guerra Santa, guerras que teriam o poder de destruição de outros homens? Fazendo com que as expansões árabes ou as cruzadas pudessem envolver homens em conquistas e reconquistas, na busca por riquezas, poder, terras e, principalmente, Deus. O homem medieval pensava encontrar Deus através da violência de suas ações, adotando todo tipo de atitude para alcançar o seu objetivo. Sendo uma época de contrastes, essa busca por coisas tão opostas como riqueza e pobreza, prazer e martírio, por exemplo, deixam marcas profundas na humanidade que, apesar de já estar vivendo a séculos de distância da Idade Média possui, ainda, um espírito bastante medieval.
A mais violenta e extensa excitação religiosa que a história lembra, ocorreu em um dos períodos mais sombrios da história da Igreja. Poder religioso cristão católico que levou às Cruzadas para defesa de seus interesses em várias regiões da Europa, quando milhões de cristãos acreditando no que exclamavam – ‘é a vontade de Deus’ – abandonavam seus lares apenas para perecerem em terras estrangeiras.
Pelas muralhas e portas, derrubando, destruindo, ou prendendo fogo no que se lhe opunha, o exército vencedor penetra então na cidade. O fogo semeia por todas as partes a desolação e a morte, o luto e o horror, suas companheiras. O sangue forma lagos ou corre em arroios que arrastam no seu curso cadáveres e moribundos. (Torquato Tasso - Jerusalém Libertada, Canto XVIII, 1575).
Salmon (2003) insiste neste ponto com muito vigor, acrescentando: Quem dirá que aquele movimento (as Cruzadas) foi só superstição e fanatismo, pois dele participaram os melhores e mais devotos da época...? No entanto, o resultado mostrou como aquele grande movimento foi promovido meramente por causas humanas;
isso porque não podemos acreditar que Deus seduzisse aquelas grandes multidões com falsas promessas e as levasse para perecer miseravelmente em uma terra distante. Vemos assim que a excitação religiosa pode existir sem conhecimento religioso.
A salvação sempre foi a grande dúvida e o grande sonho da cristandade medieval, mas esta foi por muito tempo entendida como coletiva; um povo – o povo escolhido – seria salvo, e este povo obviamente deveria ser constituído pelos seguidores do cristianismo.
As influências culturais, de determinados períodos ou a própria vontade de poder, de dominar, de tomar, de invadir, são inerentes aos próprios homens e não de Deus. No entanto, a história da espiritualidade medieval apresenta uma tendência que se deve destacar como sendo uma das mais importantes: a personalização da fé religiosa, ou seja, os fiéis percebem que, para entrar em contato com o sobrenatural, é preciso que seja através de gestos e a personalização de símbolos.
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