quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Como se formam os Mitos

Os mitos nascem a partir da necessidade de simbolização, gerando crenças, dando formas e significados, se identificando com a natureza.
Interferindo no pensar, na elaboração de idéias, sobrepondo-se às realidades.
São materializações da consciência construídas a partir de determinadas dúvidas, pelas ausências de respostas, pelo desconhecimento. É a eterna busca de conhecimentos, ou não, que simplesmente são superadas pela transformação de situações irreais em verdadeiras.
São afirmações de conceitos necessários aos humanos, que adquirem formas e coerências dentro das relações e adoração dos símbolos. É a passagem do pensar a tornar algo em concreto. Os conhecimentos empíricos são considerados como verdadeiros, sem a necessidade de comprovação científica, se comprova tudo através da fé, a expressão natural do homem tida como verdadeira, independente de questionamentos.
De acordo com Francis Bacon apud Durant (1942, p. 146), “Nossos pensamentos são mais imagens nossas, do que dos objetos respectivos. Por exemplo: “a inteligência humana, devido á sua natureza peculiar, facilmente admite a existência de maior grau de ordem e regularidade nas coisas no que na realidade existe...”.
Os ídolos são criados a partir de necessidades e transformados em estátuas, que peregrinam sobre os humanos, adorados e idolatrados como se pudessem resolver os anseios e problemas da sociedade.
A História tem fundamental importância na construção crítica de uma sociedade, mostrando o quanto ideologias dominam e predominam sobre a humanidade. Estas construções fazem parte de um inconsciente, que poucos conseguem superá-las e analisá-las. Só através do estudo científico, livre de dogmas, concebido de uma estruturação lógica, independente, racional saindo-se do censo comum, podem-se construir outras visões da condição natural do ser humano.
As estruturas de lideranças sempre existiram desde o momento em que os grupos organizaram-se. É um movimento próprio dos animais a necessidade de lideres, sentindo-se mais fortes quando influenciados por hierarquias, transferem seus conhecimentos através da história falada, contada pelos mais velhos, pelos mais experientes. Mas a partir da escrita, estruturou-se uma linguagem mais uniforme, permitindo que as histórias ficassem menos envolvidas pelas sensibilidades individuais, dando-se uma condição mais concreta daquilo que se entendia ser as primeiras regras de uma sociedade. Como as sociedades dependem de sentirem-se protegidas, surgiram grupos maiores de dominação, agora com poderes materiais, mas sob as influências de seres sobrenaturais, criando, a partir destas escritas, personalidades capazes de influenciar no consciente e inconsciente.
Antes mesmo da escrita e posterior a ela, nasceram diversos mitos, ritos, formas de enterrar os mortos, a disposição dos corpos, as formas de veneração. O nascimento como algo definitivamente envolvido por Deus ou deuses. O sobrenatural atrelado ao homem. O patriarcalismo foi fruto destes momentos. O antepassado sendo o reflexo das histórias, da adoração, da criação de deuses e semideuses. A permissão dos contatos carnais de homens e mulheres com seus deuses e destes, o nascimento de novos, que a cultura tratou de colocá-los como deuses. De sistemas politeístas a monoteístas. De politeístas, que aceitavam vários deuses, desde antepassados até provenientes da natureza.
As comunidades se organizavam através de castas que iam desde o governante, o sacerdote, tendo por funcionalidade o comercial e mercante, além dos camponeses trabalhadores, ligados a uma cidade-estado.
A necessidade de explorar o poder através da imposição dos medos, já passava a ser utilizada nestas pequenas comunidades. O medo que conseguiu produzir deuses, o medo do desconhecido que propiciou o surgimento dos mais diversos mitos. As faltas de respostas que fez com que pequenos ou grandes grupos construíssem instituições capazes da dominação. As certezas abstratas que foram construídas a partir destes modelos de sociedades.
A superioridade muscular, quando desprendida de tecnologias, acabava por incentivar a criação de mitos.
Na própria formação das escrituras, a ideologia empregada já era a de dominação, visto que os próprios hebreus saíram de lugares considerados férteis, em busca de paraísos. Muitos saíram das regiões mesopotâmicas por causa das mais diversas invasões, ou em função das próprias dominações realizadas por seus líderes em busca de liberdade, mas nunca livres da contaminação dos mitos, dos seus deuses ou de um deus.
As necessidades de fixação se tornaram essenciais a partir da produção alimentar. Os humanos sedentarizam-se e constroem seus templos dedicados a aqueles que o dominarão eternamente.
As formações das Cidades-Estados foram momentos que os poderes espirituais e temporais se uniram. Sob o olhar dos governantes as cidades eram as caras de seu deus. Exemplo típico disto são religiões que funcionam até os dias atuais, onde os poderes espirituais e temporais se concentram em um único homem.
O homem pode perceber seu envolvimento com o diferente, mas perde a noção deste quando passa a viver intensamente as novas propostas. Em um determinado momento fica tão envolvido que suas análises deixam de fazer críticas. A absorvição é total.
Para se construir mitos bastam haverem necessidades. O cérebro humano precisa destes para se reconciliar consigo próprio. É mais fácil se enganar, do que buscar a verdade. E é difícil viver sem ilusões.
Para Freud apud Droguett (2000, p. 84) este sem-sentido essencial da linguagem religiosa, esta falta absoluta de reparo racional, faz-nos pensar que a religião, nas palavras de Freud, ao ser um erro, é um erro muito grave,

como erro, todo este jogo ambíguo entre signos, símbolos e realidade é grande demais para ser real: trata-se de um delírio da verdade. O que acontece é que fora do âmbito da fé falta a técnica de uso das imagens que o crente possui, apreendidas, como todas, em forma de vida determinada e no jogo inerente à linguagem.

Na citação do professor Leuba (1929, p. 32),

o terreno da convicção específica em dogmas religiosos é, portanto, uma experiência afetiva (emocional). Os objetos de fé podem mesmo ser absurdos; a corrente afetiva fará com que eles flutuem e lhes dará uma certeza inabalável. Quanto mais surpreendente a experiência afetiva, quanto menos explicável ela pareça, tanto mais fácil é fazer dela a transmissora de noções infundadas.

O mito tem haver com as potencialidades de cada lugar e sobre as ópticas de cada povo. Há uma tendência a se valorizar os locais que se conhece, e quando estes não oferecem todas as necessidades básicas, começa-se a imaginar outros lugares que possam preencher estas faltas. Florescendo as utopias.
Os que vivem destas relações não distinguem a diferença entre realidade e ilusão, existe a coerência dentro daquilo em que acreditam não se preocupam em saber se há o diferente. O mundo se limita a ser aquilo que conhecem. Não há necessidade de procurar respostas, já que estas estão disponíveis na própria natureza.
Para Chauí (2002, p. 39), durante a Idade Média as verdades só eram consideradas verdadeiras quando fundamentadas em um Papa, um Santo, Aristóteles ou Platão. Ficando difícil ao homem comum estabelecer diferenças sociais, principalmente às escritas e telas como verdadeiras em uma sociedade obrigada a crer nas crenças de seus senhores, além de estar na educação limitada a poucos.
Hoje ainda tais pensamentos são mantidos, e os poderes das instituições religiosas exercem estas funções, da manutenção da mentalidade humana fundamentada sobre o pensamento primitivo onde os símbolos lhes dão todas as respostas para seus questionamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário