terça-feira, 7 de setembro de 2010

A CASCA DO OVO - "A história de Galileu - um jovem em busca de respostas"

Prefácio

A idéia central do tema é perceber-se como um simples mortal. Indagando as várias naturezas humanas, e todos os pilares da sua formação cultural.


A CASCA DO OVO

Capítulo um

Ao nascer Galileu, não tinha uma visão real de seu mundo, mas percebeu que o seu mundo não era diferente dos outros que já o habitavam. Porque seus antepassados viviam sem nunca questionarem o que já haviam recebido por hereditariedade.
Cresceu nesse mundo tentando entender o que lhe falavam.
Quando perguntava sobre a existência de outros mundos, lhe diziam. Sim, existe um mundo melhor. Onde você passará sua eternidade no meio daqueles que são bons. No meio daqueles que mereceram um mundo melhor do que este em que vivemos. Lá você encontrará a paz, terá vida além da morte, estará junto com o nosso deus.
Outros diziam, vivemos em um mundo distribuído por cordas, por dimensões inimagináveis, por mundos paralelos, onde a existência corresponde em alguns graus com o nosso mundo.
Outros diziam lá você gozará pela eternidade de virgens, rios de leite e terá direito a todas as benesses que os bons possuem, ou ainda mais de acordo com os teus sofrimentos poderá se tornar um mártir e mais perto de deus estará.
Outros diziam você faz parte da natureza. E como natureza a ela voltará compondo e recompondo as energias já existentes.
Outros comentavam que seus diversos deuses entre malignos e benignos, existiam aqueles de natureza animal, outros de natureza vegetal, outros de natureza cosmológicas. Mas, sempre naqueles em que acreditavam eram os verdadeiros e melhores.

Galileu quando criança era terrível. Tinha um comportamento completamente irascível, difícil de ser entendido, teimoso, de temperamento para sua idade violenta, talvez fruto do que tinha dentro das informações que recebia ou via. Brigas constantes dos pais, parentes que se odiavam – xingamentos de todas as espécies. Não aprendeu a amar nem a falar palavras carinhosas. Pelo menos nesse momento de sua vida.

Algumas lembranças chegam até sua memória, como aquela que aos seis anos criou-lhe talvez o maior trauma – vendo sua mãe chorar um dia à tarde, perguntou o que tinha acontecido, e ela respondeu que a aliança do meu pai estava pendurada no prego da cozinha, atitude que correspondia a ele ter ido embora. Galileu saiu correndo até a parada do ônibus para ver se ainda o encontrava e - daí se passou vários anos até que ocorressem contatos.

Enquanto isso lembra Galileu, experiências terríveis, como ser enjeitado, ninguém o queria, sua mãe tentava a todo custo dar a sua guarda a alguém, mas, sabem quem iria querer um menino de quase sete anos, e ainda com o comportamento que tinha? Além-claro de possuir mais duas irmãs e um irmão mais jovens e com possibilidades bem maiores de adoção. Coisas que para alguns afortunados até acontece, mas, não foi o caso inicial de Galileu e nem de seus irmãos. Vivia de lembranças, enquanto aguardava alguém que lhe quisesse, como aquela vez em que brincando de carrinho de lomba, foi quase castrado quando as rodas de rolimã se encheram de terra e o carrinho deu uma parada brusca, com ele passando sobre o grande parafuso que prendia as rodas dianteiras, ou aquela que empurrava uma bicicletinha na qual sua irmã de cinco anos ia pilotando e veio uma lambreta passando praticamente por cima deles, fazendo com que fossem arremessados para uma valeta. Ou ainda, quando sua irmã pequena de um ano e meio gritava de fome e sem saber o que fazer pegava o leite em pó escondido em cima de um armário, e enfiava na boca dela para parar de chorar. Ou um dia quando chovia muito, lembrando que alguém tinha lhe dito que gagueira poderia ser curada com um susto, aproveitando que seu irmão de quatro anos estava na janela, deu-lhe um enorme empurrão, fazendo com que ele caísse dentro de uma lata de banha, cheio de água da chuva, situação de certa forma quase mortal, mas, benéfica ao final porque deu tudo certo, inclusive a cura da gagueira. Ou quando tirava carrapatos grudados nas costas de seu irmão – que juntamente com ele brincavam em um lixão próximo da casa. Ou quando caiu um tombo violento de um barranco no qual foi buscar peixinhos para servirem de alvos para sua artilharia, dos sapos que com o machado abria ao meio para ver se sobreviviam depois, ou dava aos sapos brasas do fogão enganando-os e verem se queimaram todo, tentando cuspir as brasas, mas estas já tinham se grudado em sua língua. Outra vez, daquelas que corria por sobre a casa ou subia no alto das árvores, e caia de cara no chão, quebrando praticamente toda a boca. Quando soltava pipas com seu irmão e as colocava em alturas, onde perdia o controle dela – e ela escapava seguindo novos rumos. E desse mesmo irmão lembrava, quando ele levava surras tremendas, na qual Galileu tentava impedir o irmão de ficar todo quebrado, procurando segurar as mãos de sua mãe, que batia violentamente com um cabo de vassoura. Das tantas vezes que ficava a sós com seus irmãos que choravam de fome ou de gripes, ranhentos e sujos.

Capítulo Dois

Depois de alguns episódios em que sua mãe tentava doá-lo, no seminário dos capuchinhos não queriam pobres, os tios saíram todos de perto para não se incomodar, quando de repente foi morar com um tio, lembra ele – transava com sua tia o tempo todo, dividido só por uma cortina. Galileu agora com sete anos, não conseguia dormir. Depois de vários dias dessas atitudes que não gostava, fugiu. Saiu meio sem rumo, sem saber para onde ir. Depois decidiu ir à casa da avó materna. Sua mãe se encontrava hospitalizada e sem poder ter contatos com os filhos. Chegando à casa da avó, tentou-se explicar o motivo da fuga, mas sua avó mais que depressa disse – aqui não pode ficar já estamos deixando a tua irmã mais velha ficar. E dois é impossível – diante disso mandou que uns dos seus filhos me levassem para casa, começaram alguns períodos difíceis da minha vida, passava os dias fechado em um quarto, sentia minha carne apodrecendo, saía do quarto e permitiam que ficasse algumas vezes na parte posterior de uma escada externa que dava para um muro muito alto, onde passava as horas matando formigas e lagartixas. Depois, normalmente escolhia toneladas de arroz e feijão, após voltava para o quarto e de lá não podia sair sem autorização, somente olhando o movimento das ruas por traz das grades da janela. Passaram-se meses, até que surgiu uma avó paterna e me quis. Disseram que ela iria me tratar muito mal, que ela não tinha o que comer – só polenta rala com alho. Mas, não tinha alternativa, fui morar com ela, e lá naquele porão úmido, de talvez dois metros por um e meio, vivi uns cinco anos, passando necessidades alimentares, mas, fui colocado na escola, e o fato dela cozinhar o que pedíamos para a Legião da Boa Vontade, o que buscávamos nos postos de atendimentos da prefeitura. Dos cobertores que ganhávamos – das roupas e pijamas de pelúcias que gostava demais, porque me sentia aquecido e protegido – como se alguém me oferecesse carinho. Coisa que não lembro de ter ganho, enquanto criança.
Também guardo a lembrança das várias vezes que saía junto com outros meninos pedindo esmolas com pequenas sacolas de pano, de casa em casa, das quais recebíamos alimentos e algumas vezes dinheiro – que no meu entender não deveriam ir para a Legião, mas sim trocados por comidas nos mercadinhos e os quais também serviriam para atender outros que passavam fome. Que muitas vezes nem para pedir, tinham condições. Pessoas que eram atendidas em baixo de uma grande ponte, que mal tinham forças para levantarem os braços para receberem a sopa que lhes era entregue somente nas quartas-feiras, muitas vezes em canecos feitos com garrafas de vidro. Pensava como viviam os outros dias da semana?

Capítulo Três

Cresceu nesse mundo, fornecido por relações culturais estabelecidas e aceitas. A sociedade não consegue avaliar seu grau de liberdade ou escravidão, exatamente por ter um sistema coercitivo.

O que Galileu mais queria, era poder participar da sociedade. Na sua visão ser um trabalhador com carteira assinada, com seguranças, para que em um dia pudesse gozar dos benefícios dessa segurança, que entendia ele – um dia iria conquistar.

Fazia todas as práticas de alguém que possuía treze anos. Claro para sua época, trabalhava, estudava, cursava técnico em rádio e Tv aos sábados, procurava ir à igreja católica, algumas práticas em centros espíritas e também tinha um amigo que era luterano e juntamente com ele ia aos cultos. Tinha as crenças de sua idade, que os pecados existiam, que também podia se redimir de alguns, que poderia conquistar espaço no céu. Que seria recompensado pelas suas atitudes boas, ou negligenciado pelas más.













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